Bilheteria: as confusões e os recordes de "Viúva Negra"

Disney comemora a liderança do filme da Marvel, mas apela para números distorcidos para turbinar seus recordes. Precisava disso?

“Viúva Negra” quebrou os recordes de bilheteria de estreia do período pandêmico que pertenciam a “Velozes e Furiosos 9”.

Mas tem gente que nunca fica satisfeita.

E tem estúdio que segue o mesmo caminho.

A Disney vive uma megalomania doentia quando se trata de Marvel e está disposta a tudo para saciar essa sede de manchetes hiperbólicas.

Foi o que aconteceu com “Viúva Negra”.

O ótimo filme de ação (escrevi mais sobre ele na newsletter oficial da última sexta-feira) dirigido por Cate Shortland rendeu US$ 80 milhões no fim de semana de estreia.

Foram US$ 10 milhões a mais que “Velozes 9”. Recorde absoluto.

Esses números colocam o longa entre “Homem-Formiga e a Vespa” (US$ 76 milhões) e “Doutor Estranho” (US$ 85 milhões), que estrearam sem o fantasma da pandemia no meio.

E outro fato mudou o dinamismo da performance: “Viúva Negra” também estreou no Disney+ com custo extra de US$ 30 nos EUA -R$ 70 no Brasil.

Quando ficou claro que o longa não ultrapassaria a marca mágica dos US$ 100 milhões que a Marvel se acostumou a obter em seus lançamentos, a Disney não contou conversa e fez algo que nunca havia feito na curta história do seu serviço de streaming: liberou os números do desempenho do filme em VoD.

Segundo a casa do Mickey, “Viúva Negra” rendeu US$ 60 milhões com o acesso premium dos assinantes do Disney+ no fim de semana. Com os US$ 78 milhões arrecadados internacionalmente, o filme rendeu, no mundo todo, US$ 218 milhões no fim de semana. Sensacional, não?

Mas…

Entramos, então, na era da divulgação de dados por conveniência.

O que antes era segredo de Estado, virou arma de publicidade, já que a Disney, assim como todos os estúdios quando lançam VoD simultâneos, nunca divulgou dado nenhum sobre seus filmes no formato.

Mas por que isso, então?

A Netflix já fazia isso. É uma forma de torturar os números para conseguir resultados que geram manchetes fáceis em sites de fãs cegos ou naqueles que não se importam muito em dissecar números além do release.

Por exemplo, a Disney veio em nota oficial dizer que “Viúva Negra” é a terceira maior estreia nos EUA de um longa de origem de herói Marvel, perdendo apenas para “Pantera Negra” e “Capitã Marvel”.

Uma bela mentira, já que isso só aconteceria se somássemos os números em VoD, o que distorce toda a dinâmica. Com números de cinema o longa protagonizado por Scarlett Johansson perde também para “Homem-Aranha: De Volta ao Lar”, “Homem de Ferro”, “Guardiões da Galáxia” e “Doutor Estranho”.

Não estou sendo chato na análise. A Disney tentou ser esperta.

Tanto que o estúdio NÃO divulgou a porcentagem de assinantes que pagaram para ver o filme e NÃO moram nos EUA e Canadá. Como você quer se gabar de uma estreia doméstica utilizando números gerados não apenas por VoD, mas por assinantes que moram fora do país?

Para isso acontecer, o Disney+ nos EUA teria de ter gerado mais de US$ 37 milhões. Por que a empresa não detalhou isso? Fica a dúvida e a conveniência de só entregar números que forçam uma narrativa.

O pior é que “Viúva Negra” não precisava dessas hipérboles.

O filme é divertidíssimo e rendeu o suficiente para mostrar que o estúdio acertou na estratégia de esperar para lançar em julho de 2021.

Mas fica a impressão de que a Marvel ficou com medo da repercussão negativa pelo fato de não ter gerado US$ 100 milhões na América do Norte.

Bobagem. Ainda mais se levarmos em conta que a Disney terá rendimentos brutos com o filme em VoD, já que não precisará dividir o preço do ingresso com os exibidores.

Será que “Viúva Negra” teria ultrapassado os US$ 100 milhões se tivesse sido lançado exclusivamente nos cinemas e a empresa se apressou para tentar controlar os críticos da decisão? É a pergunta de um bilhão de dólares.

Afinal, quantos assinantes geraram essa grana nos EUA? A Variety acredita em dois milhões, o que não seria algo incrível, mas faria diferença nos cinemas.

A distorção dos números me leva a duvidar da felicidade do estúdio, para falar a verdade.

Em vez de curtir os recordes na retomada dos cinemas, a Disney pareceu usar maquiagem demais para chamar a atenção numa festa onde ela já é a principal convidada.


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