Ovelhas x polvos
Um fim de semana animalesco nos filmes. Mas nem tudo está perdido.
Sei lá por que cargas d’água terminei assistindo a dois filmes com protagonistas animais nesta semana.
Normalmente, é o tipo de coisa que não me leva ao cinema — ou até mesmo me faz perder tempo no streaming.
Mas, por algum alinhamento astral, acabei vendo “Criaturas Extraordinariamente Brilhantes” (Netflix) e “As Ovelhas Detetives” (nos cinemas).
Polvo x ovelhas.
A newsletter raramente dedica espaço a filmes já em cartaz, mas vou abrir uma exceção.
Nem tanto por causa de “Criaturas Extraordinariamente Brilhantes”, adaptação do livro homônimo escrito por Shelby Van Pelt.
O filme de Olivia Newman (“Bem Longe Daqui”) conta a história de três personagens presos em suas limitações, físicas ou psicológicas: Marcellus (voz de Alfred Molina), um polvo-gigante-do-Pacífico que sente a morte se aproximar enquanto observa a vida trancado em um aquário desde que foi resgatado do oceano; Tova (Sally Field), uma idosa que limpa o aquário e lida com a morte precoce do filho e a solidão autoimposta; e Cameron (Lewis Pullman), um jovem guitarrista que busca suas raízes na pequena cidade litorânea e acaba criando uma amizade com a senhora mais velha.
O longa é uma espécie de “Professor Polvo” dramatizado com quilos e quilos de açúcar cristalizado. Em diversos momentos, os personagens ultrapassam a linha da antipatia rumo ao insuportável: Tova é uma chata de galocha que trata todo mundo como lixo e Cameron é tão paspalho que fica difícil acreditar que ele saiba dirigir um furgão. Sobra o coitado do Marcellus, pouco utilizado e serve mais como conector entre os protagonistas.
É um filme gentil e bem-intencionado, porém nada em “Criaturas Extraordinariamente Brilhantes” parece real — o que funcionaria muito bem se ele não se levasse tão a sério em suas lições de vida. Há algumas pitadas de comédia que aliviam a sensação, mas o filme, a partir da metade final, mergulha em um mistério insano que culmina em uma reviravolta ainda mais insana, daquelas que nem um aluno de roteiro escreveria sem levar uma bronca do professor.
É o tipo de obra que, aposto, fará sucesso na Netflix.
Mas o que me impulsionou a escrever uma newsletter animalesca foi outro filme.
“As Ovelhas Detetives” é o tipo de filme para toda a família que Hollywood desaprendeu a fazer — e que levava multidões aos cinemas em décadas anteriores.
Escrito por Craig Mazin, de “Chernobyl” e “The Last of Us”, e produzido pela dupla Phil Lord e Christopher Miller, de “Devoradores de Estrelas”, o filme adapta o livro “Three Bags Full”, de Leonie Swann.
Tem Hugh Jackman como um pastor de ovelhas de uma pequena comunidade no interior da Inglaterra para atrair o público.
Mas a grande atração do longa dirigido por Kyle Balda, diretor de animações como “Minions” em sua estreia em live-action, está explícita no título: as ovelhas.
Sim, porque Jackman morre logo nos primeiros minutos e cabe aos seus animais descobrir quem cometeu o assassinato, já que o policial local (Nicholas Braun, hilário) está mais para Mr. Bean do que para Poirot.
A gama de personagens é vasta, mas deliciosa. Tanto do lado dos suspeitos, como a filha pródiga que retorna (Molly Gordon), a dona do albergue local (Hong Chau), o açougueiro (Conleth Hill), o padre misterioso (Kobna Holdbrook-Smith) e o fazendeiro concorrente (Tosin Cole), quanto dos animais, da inteligente Lily (voz de Julia Louis-Dreyfus) ao desgarrado carneiro durão Sebastian (voz de Bryan Cranston).
Apesar de trafegar nos limites de uma classificação livre, “As Ovelhas Detetives” é engraçado, esperto e apaixonante para pais e filhos. Fui ver no cinema comum, na primeira sessão de um sábado, e a sala estava cheia de famílias, todas concentradas durante a exibição e aplaudindo ao final.
Talvez por isso tenha arrecadado acima do esperado pelo estúdio (US$ 16 milhões), embora o filme ainda precise recuperar um orçamento de US$ 75 milhões — boa parte dele destinada a tornar os animais digitais verossímeis.
Vai conseguir?
Quem se importa?
Ovelhas investigando um crime como em um bom mistério de Agatha Christie não é algo que se vê todo dia.
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